Há um mês atrás, comprei duas barras de chocolate Alpino.
Acontece que eu estava com muita vontade de comer o mousse de
chocolate da Tia Zezé. Quando eu era criança ela sempre tinha um pudim, um
mousse ou alguma sobremesa deliciosa quando íamos visitá-la. Mousse de
chocolate era a minha preferida.
Quando já era adulta e morava em outra cidade, pedi para ela
a receita e ela me mandou pelo Facebook, exatamente como ela fazia. Uma barra e
meia de chocolate alpino bla bla bla.
O problema é esse bla bla bla que eu nunca lembro.
Tia Zezé era uma segunda mãe, uma mulher forte, carinhosa e
sincera. Era brava quando a gente fazia bagunça, adorava cantar pra gente em
todas as oportunidades, me ensinou a comer folha de couve com sal, enquanto meu
primo Caio ensinava a gente a jogar no computador. Na época só ele sabia mexer
em computador e foi o melhor nisso durante muitos anos.
A gente fazia sol de farinha no quintal quando chovia na
praia e sempre dava certo: o Sol voltava. Lembro dela segurando minha mão para pular
onda, eu devia ter uns 4 anos. É impossível não lembrar dela quando a gente
pensa em Itanhaém, onde a gente passava as férias de verão. Roda de
adolescentes na rua, violão, feirinha hippie, castelo de areia, sorvete caseiro
de creme, gelinho, macarrão, salada de rabanete, cheiro de Sundown e depois de
Caladryl, Pilecão, pastel do quiosque da Xuxa, jogar buraco até de madrugada,
pranchas de surf do Guga debaixo da cama. Quanta piada interna que só os primos
e tios vão entender.
Queria guardar num potinho esse monte de memórias, para de
vez em quando abrir e cheirar.
Bom, voltando às barras de Alpino, faz um mês que estão ali,
em cima do armário, esperando a receita. Entrei no histórico de mensagens no
Facebook, mas essa mensagem é muito antiga, já se perdeu. Procurei no google e
tem muitas receitas diferentes, nenhuma é a da Tia Zezé.
Percebi que não sentia falta do mousse, mas sim da tia.
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