Duas semanas antes do segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula, me meti a entrar numa escola Estadual de São Paulo.
A juventude com toda a sua energia. Olhares, roupas, cabelos coloridos, piercings, grupos...
Uma garota obesa, com camiseta de banda, cabelo curto com mullets pintado de verde. Essa garota cantou "Como Nossos Pais". Chorei. Eu realmente não sei o que ela planejou com isso, se ela sabe o peso do que fez, se ela tem ideia do mundo que ela vai viver e poder ou não habitar.
Chorei também quando tocou o hino nacional. Não canto o hino há mais de 20 anos, é meu ato de rebeldia. Sei a letra completa e acho lindo, mas faço questão de me calar e ficar com olhar firme. Imaginei nesse momento uma intervenção em que uma travesti dança o hino nacional de forma irreverente e com sorriso no rosto. Talvez representando Jesus ou o saci. Dois adolescentes soltam sorrisos e comentam alguma coisa e rapidamente a diretora chama atenção ao pé do ouvido. Quando chega ao final, uma professora comenta: "É tão bonitinho que agora eles não batem palmas mais, né?" Se vangloriam da domesticagem autoritária e sem sentido. Não, minha senhora, eles não batem palma, mas também não entendem o significado disso. Nem eu entendo e também não bato palma. E daí?
Era um evento sobre a política de inclusão na escola, apresentação dos professores especializados, da sala de recursos, da tradução simultânea em libras. Ao final foram entregues certificados que eu não entendi do que eram exatamente. Cada aluno de inclusão foi à frente, recebeu um certificado e tirou uma foto comigo e com outra professora aleatória que foi visitiar a escola. Eu não sabia que faria isso, mas me colocaram lá sem me perguntar. Escola sendo escola. Alguns alunos de inclusão não quiseram ir à frente se expor e escutei o comentário da coordenadora: "Eles são muito tímidos, isso é um problema." Problema, minha senhora, é achar que todos devem se sentir à vontade com a estrutura que vocês - neurotípicos, ouvintes, padrão - criaram. A maior vitória que observei do trabalho da inclusão foi respeitar que os que não quisessem comparecer à frente pudessem receber o certificado sentados no lugar onde estavam, mas acho que a gestão nem percebeu que isso foi inclusivo.
Eu não entrava numa escola em um contexto de interação com os estudantes há mais de 20 anos e só queria sair correndo dali. Hostil, pesado, autoritário. E nem é das piores, e nem é militar. A juventude tem tanto poder, tanta energia, tanta potência, mas tudo isso é intencionalmente controlado, amarrado, reprimido. A voz dos professores soa como som de cassetetes militares em atos revolucionários. Eu estive lá nos ano 2000 para ver, ouvir, sentir.
Fica aqui meu questionamento: Os adultos sabem o quanto a escola faz essa garotada sangrar? Eles se adaptaram e aceitaram e parece que esqueceram todas as dores que o ambiente escolar é capaz de causar.
Os adolescentes, eles não sabem o risco que estão correndo, até porque já estão sendo treinados há anos para naturalizar as relações opressoras.