sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Duas semanas

 Duas semanas antes do segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula, me meti a entrar numa escola Estadual de São Paulo.

A juventude com toda a sua energia. Olhares, roupas, cabelos coloridos, piercings, grupos...

Uma garota obesa, com camiseta de banda, cabelo curto com mullets pintado de verde. Essa garota cantou "Como Nossos Pais". Chorei. Eu realmente não sei o que ela planejou com isso, se ela sabe o peso do que fez, se ela tem ideia do mundo que ela vai viver e poder ou não habitar. 

Chorei também quando tocou o hino nacional. Não canto o hino há mais de 20 anos, é meu ato de rebeldia. Sei a letra completa e acho lindo, mas faço questão de me calar e ficar com olhar firme. Imaginei nesse momento uma intervenção em que uma travesti dança o hino nacional de forma irreverente e com sorriso no rosto. Talvez representando Jesus ou o saci. Dois adolescentes soltam sorrisos e comentam alguma coisa e rapidamente a diretora chama atenção ao pé do ouvido. Quando chega ao final, uma professora comenta: "É tão bonitinho que agora eles não batem palmas mais, né?" Se vangloriam da domesticagem autoritária e sem sentido. Não, minha senhora, eles não batem palma, mas também não entendem o significado disso. Nem eu entendo e também não bato palma. E daí?

Era um evento sobre a política de inclusão na escola, apresentação dos professores especializados, da sala de recursos, da tradução simultânea em libras. Ao final foram entregues certificados que eu não entendi do que eram exatamente. Cada aluno de inclusão foi à frente, recebeu um certificado e tirou uma foto comigo e com outra professora aleatória que foi visitiar a escola. Eu não sabia que faria isso, mas me colocaram lá sem me perguntar. Escola sendo escola. Alguns alunos de inclusão não quiseram ir à frente se expor e escutei o comentário da coordenadora: "Eles são muito tímidos, isso é um problema." Problema, minha senhora, é achar que todos devem se sentir à vontade com a estrutura que vocês - neurotípicos, ouvintes, padrão - criaram. A maior vitória que observei do trabalho da inclusão foi respeitar que os que não quisessem comparecer à frente pudessem receber o certificado sentados no lugar onde estavam, mas acho que a gestão nem percebeu que isso foi inclusivo.

Eu não entrava numa escola em um contexto de interação com os estudantes há mais de 20 anos e só queria sair correndo dali. Hostil, pesado, autoritário. E nem é das piores, e nem é militar. A juventude tem tanto poder, tanta energia, tanta potência, mas tudo isso é intencionalmente controlado, amarrado, reprimido. A voz dos professores soa como som de cassetetes militares em atos revolucionários. Eu estive lá nos ano 2000 para ver, ouvir, sentir.

Fica aqui meu questionamento: Os adultos sabem o quanto a escola faz essa garotada sangrar? Eles se adaptaram e aceitaram e parece que esqueceram todas as dores que o ambiente escolar é capaz de causar.

Os adolescentes, eles não sabem o risco que estão correndo, até porque já estão sendo treinados há anos para naturalizar as relações opressoras. 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Alpino, Itanhaém e música.

 Há um mês atrás, comprei duas barras de chocolate Alpino.

Acontece que eu estava com muita vontade de comer o mousse de chocolate da Tia Zezé. Quando eu era criança ela sempre tinha um pudim, um mousse ou alguma sobremesa deliciosa quando íamos visitá-la. Mousse de chocolate era a minha preferida.

Quando já era adulta e morava em outra cidade, pedi para ela a receita e ela me mandou pelo Facebook, exatamente como ela fazia. Uma barra e meia de chocolate alpino bla bla bla.

O problema é esse bla bla bla que eu nunca lembro.

Tia Zezé era uma segunda mãe, uma mulher forte, carinhosa e sincera. Era brava quando a gente fazia bagunça, adorava cantar pra gente em todas as oportunidades, me ensinou a comer folha de couve com sal, enquanto meu primo Caio ensinava a gente a jogar no computador. Na época só ele sabia mexer em computador e foi o melhor nisso durante muitos anos.

A gente fazia sol de farinha no quintal quando chovia na praia e sempre dava certo: o Sol voltava. Lembro dela segurando minha mão para pular onda, eu devia ter uns 4 anos. É impossível não lembrar dela quando a gente pensa em Itanhaém, onde a gente passava as férias de verão. Roda de adolescentes na rua, violão, feirinha hippie, castelo de areia, sorvete caseiro de creme, gelinho, macarrão, salada de rabanete, cheiro de Sundown e depois de Caladryl, Pilecão, pastel do quiosque da Xuxa, jogar buraco até de madrugada, pranchas de surf do Guga debaixo da cama. Quanta piada interna que só os primos e tios vão entender.

Queria guardar num potinho esse monte de memórias, para de vez em quando abrir e cheirar.

Bom, voltando às barras de Alpino, faz um mês que estão ali, em cima do armário, esperando a receita. Entrei no histórico de mensagens no Facebook, mas essa mensagem é muito antiga, já se perdeu. Procurei no google e tem muitas receitas diferentes, nenhuma é a da Tia Zezé.

 

Percebi que não sentia falta do mousse, mas sim da tia.

terça-feira, 31 de março de 2026

Carta de gaveta

Sinto sua falta. Vi suas fotos hoje e senti um calorzinho no coração. Vontade de te ver sorrir. Sinto que você sorria mais no começo e depois foi se apagando, não queria te fazer mal.

Eu sinto sua falta, mas sinto que não posso te amar agora. Não do jeito que você quer e merece. Não quero alguém que entre na minha casa, que conviva com a minha filha. Quero estar sozinha a maior parte do tempo e é egoísta pensar em estar com você só quando me é conveniente. Não estou preparada para abrir vaga ao meu lado na cama, isso me causa arrepios. 

Sinto sua falta. Gostava das nossas conversas e brincadeiras, mas me irritava rápido com seu humor ácido. Não quero ninguém que entre na minha vida o suficiente para apontar minhas fragilidades e defeitos. Te quero, mas te quero mais distante.

Sinto falta do seu cheiro, do seu sorriso, do nosso encontro, do nosso sexo. Sinto falta do seu cuidado, mas me custa muito admitir isso. Quando você cuidava de mim eu sempre me sentia em dívida e isso me deixava ainda mais irritada.

Sinto sua falta, mas não acho justo te mandar mensagem e te chamar para não te oferecer o que você merece. Não é justo te chamar e depois me distanciar de novo simplesmente porque me quero só e te quero às vezes.

Sinto que chegamos em um lugar que é difícil voltar. Sinto que te conquistei o suficiente para você construir castelos, mesmo sem querer, mas eu não quero castelos agora. Quero chão, rua e solidão, mas ainda sinto sua falta.

Sinto sua falta e até chorei hoje pensando que não vamos nos encontrar mais. Duas semanas de silêncio total entre nós. Não é que esteja difícil mas é que eu sinto sua falta e sinto muito por não conseguir fazer isso agora. 

Eu realmente quero aprender a lidar comigo sozinha, para depois pensar em compartilhar. Estou amando a minha solidão, mas sinto que estou abrindo mão de algo muito especial. Te quero feliz e livre e sinto que te prendo numa gaiola e saio voando, te deixo a ver navios. Não estou disponível, mas como dói sentir sua falta.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Passou, como a brisa.

Eu te esperei. 
Varri a casa, troquei as toalhas e a roupa de cama. Vesti a roupa mais limpa e fresca, achando que você viria para ficar.
Eu te esperei.
E no entre-verso do meu canto esperei que você me abraçasse pela cintura e dissesse no meu ouvido: cheguei.
Eu te esperei, mesmo você não dando certeza de que viria, mas a sua incerteza me acendeu a esperança que eu precisava para fantasiar toda uma madrugada.
Te esperei desde as 3 da tarde, mas você não chegou. Tarde da noite eu me dei conta de que você não viria mesmo. Você bem sabe que eu demoro para perceber aquilo que não quero aceitar.
Já entendi que você não é do tipo que se deve esperar. Talvez você não queira saber que eu te amaria se você tivesse vindo. Talvez não tenha coragem de assumir esse risco.

Te esperei, meu bem, mas não espero mais. 

terça-feira, 13 de maio de 2025

Dias sim, dias não.

Você fica nessa demora para ligar
E eu pensando em que roupa usar
Para matar a saudade que sinto

Cabelo preso, solto ou bagunçado?
Não deu tempo de saber como você gosta
E eu sei que no fundo isso não importa 

Porque você sempre se demora 
E a minha espera não é de agora
Mas se quer saber a verdade

Estou fluindo para outro lado
O tempo não foi meu amigo
Esse amargo na boca é conhecido antigo

O que você me oferece não é suficiente
E eu não vou esperar para me convencer
Que toda essa preocupação foi em vão 

domingo, 27 de outubro de 2024

Diário de quarentena #8

Antes da dor que explode, transborda e grita, existe a dor sussurrada, em conta-gotas, implodida. Não pense que quem grita sofre mais do que quem cala. Imagine um afogamento em que a água ocupa o lugar do ar que sairia como um grito de socorro que atravessaria o oceano se pudesse.
Gargalhadas escondem as lágrimas que ficam entaladas, às vezes não têm força para sair, mas também já não cabem num peito tão inundado pelo tempo. Ficam ali travadas, engrossando os nós na garganta, alimentando as paranóias.
Não sei se falo de mim, de outro, de nada. Pode mesmo ser um drama danado, mas dói. E eu posso não saber falar de outro jeito. Comunicar não é coisa fácil. Quanto mais falo, menos digo. Ainda existem os entraves e barreiras nos ouvidos de quem na verdade não quer escutar o que não agrada.
Me expresso de outro jeito, porque as gargalhadas escondem muito bem as lágrimas. Lágrimas que decepcionam a necessidade compulsiva de ter felicidade.
Não ter felicidade é sinal de fraqueza, incapacidade, falha. Eu não acredito nisso ou tento constantemente não acreditar para poder me confortar.
Não vou ficar, a essa altura, questionando o que é felicidade. Não me importa.
Olhares, palavras, gestos, energias. Braços cruzados, sorrisos engolidos, sarcasmo. Essa não sou eu, embora às vezes me venha ser essa. Esse é o mundo algumas vezes. Entende que dói? Poderia ter um nome. Parece que se tivesse um nome eu conseguiria colocar em uma caixa e guardar no fundo da gaveta, esquecer.
Diferente disso: ensimesmamento. Isso existe.
Se aparentemente estou para fora e expansivamente ocupando o mundo, na realidade estou fechando todas as brechas e abrindo apenas aquilo que posso e quero que seja acessado. Da mesma forma, se estar para dentro está aceitável, então o fora se torna fluido e tranquilo, seguro.
O mundo é hostil. Não sou um cristal, queria ser para poder quebrar, mas não sou.
Cascalho. Se um cascalho quebra não tem importância porque continua dando boa massa e não há por que se importar. Que bom que sou um cascalho, mas que pena que vou quebrar muito ainda.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Perdendo o time

Gosto de criar histórias na minha mente.
Construo o enredo do amor perfeito como se o amor ainda existisse. Aquele amor que arde e as vezes dói. Que tem cheiro, que tem vida. Aquele amor que queima muito e portanto queima rápido, mas que antes que se acabe acontece algum rompimento que faz arder mais, que faz não se acabar.

Crio com tanta fidelidade, que começo a acreditar no que criei.
Crio um beijo na adolescência seguido por uma paixão e uma desilusão. E que depois disso passa mais de uma década construindo um amor impossível na cabeça. E desse amor não consigo me desfazer. Dentro de mim é real e a projeção que faço todos os dias de você é real.
A adolescente se torna mulher, conhece outros mundos e carrega aquele gosto do beijo e do namorico às escondidas. Minha personalidade se formou com a marca da desilusão e a esperança do reencontro. Embora já não pense tanto, quando penso crio memórias do que não aconteceu, que se sobrepõem, se confundem até que não sei mais o que é passado ou presente, real ou imaginário.
Crio um ser amado que tem um jeito de falar, um gosto musical, um ritmo.
O ser criado se torna forte e fonte de novos desejos. Ela já acredita tanto no que criou, que não pode mais olhar para o real. É como se uma corda a puxasse para aquele ser amado imaginado idealizado.

Ele não sabe. Nunca soube dos suspiros noturnos, das lágrimas e da desesperança. Das vezes que ela passou no ônibus na frente da sua casa com a expectativa intensa de vê-lo sair pela porta com seu boné claro e suas roupas largas. Nunca vai saber das vezes que apareceu nos seus planos e sonhos. 
Não sabe nem vai saber porque não é ele, é a projeção de tudo que quis um dia colada no real-imaginário.

Se encontraram depois de exatos 20 anos. Até pouco tempo atrás lembrava a data do seu aniversário, pensava nele sempre. Não acreditou quando puxou o assunto e percebeu a riqueza de detalhes da memória que ele tinha daqueles beijos adolescentes. O gosto, o ritmo, a textura, seu cheiro. Nada mudou. Por que não deu certo? Que conversa mais maluca. Uma declaração de amor com 20 anos de atraso dá margem para muitas interpretações. Mas o nada mudar traz em si um dilema grave: dá a impressão de que é possível reviver o que deixamos passar por descuido, mas ao mesmo tempo traz uma imaturidade que não nos cabe mais.
Não seguimos. A vida não contempla mais um amor adolescente, se não algo que tenha raízes firmes e copa frondosa.

O que me resta é continuar a desejar o ser inventado com a consciência de que não podemos viver o que passou. Acordei no outro dia escutando as músicas que você me apresentou, que escutávamos juntos. Quem será você agora? Será que eu sou capaz de te ver com suas dimensões ou só capto a superficialidade que minha mente consegue alcançar?

O que você faria naquela noite?

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